sábado, 3 de dezembro de 2005

SINFONIA DE INVERNO

Bira Malta

Amanhece depois das 8 horas e tudo esfria. Olhos escondem seu brilho e bocas se calam na corrida das bicicletas até a estação de trem. Cabides ambulantes e seus casacos pesados, passos apressados fugindo do vento congelante. E eu imigrante assim como você no meio de sentimentos confusos. Não sei se alegre ou se triste, somente os sonhos e anseios de ontem parecem nada mudar na realidade que me espera do outro lado da porta, Não jogo mais com a sorte e nem brinco de ser grande. Quero amanhecer mais feliz e assim como todo imigrante quero ser aceito nas minhas diferenças, nas minhas tolices e na certeza quase constante de que vim pra ficar seja pelo tempo que for. Eu também falo de amor e de saudade e da paisagem que vive eterna na memória. Falo do hoje, do agora, do que me faz encolher no sofá da sala, que me faz cantarolar uma canção qualquer. E como quem tenta espantar o frio, ando mais distraído, fugindo da chuva que comeca a cair. O que nos trouxe aqui e o que nos embala, na fala, no som, no silêncio de páginas que folheamos sem ler e na voz ao telefone que nos traz um cheiro bom e forte de café. Pensamentos que habitam nossos dias nublados. Verão ou inverno, dilema de quem vive segundo as estações. E apesar de aceitar as mudanças de humores e temperaturas, fingimos que não reclamamos mais e nos encolhemos de novo por debaixo dos lençóis na manhã preguiçosa de dezembro. O mundo está mudando a muito tempo, mais rápido que as estações e mais injusto do que o vento que arranca folhas e cores das árvores, na vida e morte de cada dia. Nós também temos nossas raízes e folhas que balançam no peito chamada esperança, sonhos feitos de ar e de suor. No que aperta na garganta e na boca que seca sem aquele gole a mais. Na sinfonia de inverno se choro ainda é porque ainda tenho muito o que aprender e por estar compartilhando com você minha dor e minhas faltas se amenizam. Já é quase inverno e os cartões ficam á minha espera se contorcendo na gaveta , na palavra que não rima e na casa que aquece meus pensamentos e minhas mãos frias. Sinfonia pra quem esquece a letra e lembra da melodia. Música que ninguém escreveu, mas que todos nós somos autores-coadjuvantes, parceiros de fato. Nas várias vozes que o dia registra, há um pouco do compasso e da cadência desse som brasileiro, desse sotaque mais suave.
Na sinfonia pra todos os invernos vamos pintar de verde e amarelo onde era cinza, vamos pintar o laranja e um azul cor do céu. Vamos atrasar os relógios só pra ver se o tempo pára um pouco e os termômetros sobem mais dois graus. Vamos pensar diferente e enxugar o rosto do que era pranto e se transforma em sorriso. Vamos lembrar do que nos aquece sem ser casaco, do que nos protege sem ser cobertor , do que nos faz um carinho sem ter braços nem mãos. Vamos pensar no amor próprio, sem egocentrismo, sem egoísmo, sem dissimulação. Na sinfonia de inverno vamos ser o maestro, a inspiração primeira. O condutor do nosso presente e do nosso futuro mais próximo. Se querer fazer jogos nem apostas eu garanto que conseguimos sim, se pelo menos tentarmos ser feliz sem contarmos os trocados no bolso ou mendigar carinhos alheios, sem esperarmos alguma bengala de cego ou muleta psicológica. Sem fazermos apostas e sem esperarmos demais, conduzimos nossa orquestra e regemos nossa sinfonia de inverno e de verão.


- Ubiratan

2 comentários:

  1. Que texto lindo Francy! Escrito com o coração! Quase pude sentir o frio (e estou a 28ºC de temperatura nesta tarde de verão tropical) e o cheirinho do café quentinho...

    Muito lindo, amei! Parabenize o autor por mim, sim?

    Beijos

    Ada

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  2. Amiga,
    Somente agora estou tomando pé da situação... tenho muitos comentários a fazer e vai levar tempo para ver todos.... pode deixar, darei os parabéns ao Bira.. e obrigada por ele.
    bs,
    Francy

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