sábado, 19 de julho de 2008

A importância de areas verdes no Recife

Portas e travessas
Por Joca Souza Leão


Com essa história de caminhar pelas ruas do Recife e escrever sobre algumas caminhadas, tornei-me, ainda que por portas e travessas, um peripatético de carteirinha. Não filósofo, como os gregos, mas apenas um simples caminhante, anotador de ruas, lugares, casas e pessoas.

Se existe uma coisa que mobiliza as pessoas hoje no mundo, é a preservação e implantação de áreas verdes. O prefeito de Nova York tá plantando 1 milhão de árvores. Paris, Londres, sobretudo, e a própria Nova York garantiram o futuro com seus grandes parques urbanos. E por lá, os burgomestres de plantão não derrubam árvores para construir merchandisings da Nestlé de pedra e cal, como aqui. Parque é parque. E o Recife não os tem, merecedores desse nome, quando comparados ao Ibirapuera, Bois de Boulogne, Hyde e Central Park. E nem florestas como a da Tijuca. O Parque 13 de Maio, que não é nada em tamanho, tá mais para praça, tem umas três dúzias de árvores, gramadinhos e canteirinhos. O resto é pista de cooper, playground, fonte, tanque, jaulas de animais e sei lá mais o quê. A Mata de Dois Irmãos, que é uma titica, todo dia lhe comem um pedaço. E na Região Metropolitana a coisa é ainda pior.

Nas terras do que é hoje o bairro da Jaqueira, Felipe Camarão derrotou os holandeses na defesa do Arraial do Bom Jesus (Casa Amarela), no século XVII. A igrejinha de N.S. da Conceição é do século XVIII. Um sítio histórico, portanto. Ainda assim, o Parque da Jaqueira que temos hoje foi uma sorte. Era privado. Pagou dívida com a União. Ganhou-o o INPS, hoje INSS. Foi-nos então cedido em comodato por vinte anos. E agora doado de forma definitiva pelo Governo Federal.

O Recife está mobilizado em defesa de toda a área do Hospital da Tamarineira, ameaçada de virar shopping center. A luta é para que a Prefeitura desaproprie, restaure o hospital e lhe dê destino cultural, além, óbvio, de preservar a área verde. Numa de minhas caminhadas, fui até lá. O prédio do século XIX, já o imaginei restaurado. O quintal, com centenas de árvores, muitas centenárias, imaginei-o sem muros (a tralha de outdoors, felizmente, já foi retirada). Mangas de todo tipo, sapoti, cajá, oiti coró, jambo, azeitona, caju, pitanga, goiaba, banana, pinha, fruta-pão, ipê, acácia, coco, a flora pernambucana toda. Além das palmeiras imperiais. E passarinhos! Desde menino não via tantos. Até sanhaçu. São nove hectares e pouco. Maior que a Jaqueira, que tem sete.

Não seria razoavelmente democrático perguntar às pessoas que vivem nas cercanias (Casa Amarela, Macaxeira, Vasco, Água Fria, Casa Forte, Parnamirim, Jaqueira, Tamarineira, Rosarinho, Aflitos, Torre, Madalena, Graças e Espinheiro) o que elas preferem? Mais um shopping com estacionamento gigantesco ou um parque de verdade? Se der shopping, vou lamentar muito. Mas que seja feita a vontade da maioria. Agora, derrubar tudo sem consultar ninguém tem nome: autoritarismo.

Noutra caminhada, fui ver a obra de restauração do Hospital Pedro II (século XIX). Tá ficando uma maravilha. Aquilo, sim, pode-se chamar de restauração. Muito diferente do que fizeram no Sítio Histórico da Capunga, que pintaram com cores publicitárias como se fosse um outdoor e depois disseram que tinham restaurado. Se fossem ao Pedro II, não teriam coragem de dizer uma besteira dessas.

E assim caminha o Recife. Entre trancos e barrancos. Mas quando a gente vê algo como o que está sendo feito no Pedro II, tem esperanças. Nem tudo está perdido.
 

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