sábado, 20 de agosto de 2005

ESTAÇOES E CANÇOES











Bira Malta

Na confusão de vozes e falares estranhos, tomamos mais um trem na pressa de chegarmos a lugar nenhum. No meio do caminho trocas e atrasos e o relógio que não pára de nos lembrar que estamos por um fio. O carinho ficou em casa no nome que adoça nossa lembrança. Tantos quereres e todo bem do mundo seja de um amigo ou um amor que nos abraça todas as manhãs ou ainda no silencio dos lençóis de madrugada. Não há palavra mais poderosa que o coração não registre , tudo é especial, tudo é lírico e eterno enquanto dura. Na pura canção que o dia tece, no que os anos bordam, no que a vida eterniza na tapeçaria inacabada , nessa quadro da nossa existência contada e recontada mudando nomes e lugares. Mas voltamos ao real , na estação, trocando de vagões e no tempo que se perde sem nos acharmos. Estamos vestindo nossos casacos pelo avesso e trocando o dia pela noite. Estamos ás vezes sempre tão cheios de compromissos e sem tempo pra nossos sonhos e projetos. Estamos adiando nossos medos antigos e esquecendo de sermos fortes. Tão pouco sabemos do outro e ainda assim deixamos de indagar o que somos e o que nos tornamos no dia que já passou na folha do calendário. Vivemos mais uma estação, e até parece que foi mais um verão que esqueceu de nos esquentar. Reclamamos demais e vivemos de menos, temos medo de chorar por coisas tão simples, como por exemplo a primavera que deixa a noite derramar seu orvalho e nas folhas que cobrem a calçada que esperam um vento carrega seu perfume sutil. Mas em meio a essa magia nosssa atenção ainda assim se dispersa na fumaça cinza dos carros, no lixo depositado no jardim, na praça com suas pichações e no hip hop descompassado dos skatistas.
Temos vida de artista, pendurados na corda bamba, apertando o cinto, esticando o salário até o final do mês. Até parece Brasil, mas ainda é primeiro mundo e ainda somos imigrantes, falando uma idioma complicado, enrolando a língua, dando um jeitinho, embarcando em outras histórias e seguindo em frente. Somos Brasil, somos Brazukas, somos cuca legal e pés descalços. Somos loucos e santos, somos felizes e somos sentimentais até o último fio do cabelo. O que sempre será verde e amarelo , mesmo que inventem de nos pintar com azul, vermelho ou laranja. Não importa onde vivemos e de onde viemos, damos vida e cor por onde passamos, pois nem tudo é folclórico, oba e oba e carnaval. Vida de imigrante se reflete nas estaçoes , nos trens e nos veroes sem aquela cervejinha estupidamente gelada, sem chuva no cair da tarde, sem o mar que brota dos olhos e fala de tardes morenas, na cadência marcada, no decote , na marquinha da sunga. Saudade ponteia nossas cronicas e tatua no peito um coraçao partido ao meio de quem está longe e perto de casa. 







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