Final de semana
Bira Malta
Cai a tarde como chumbo só pra dizer que um dia foi pouco. Corremos a semana inteira, vivemos de um lado pro outro. Mal enxergamos o nosso reflexo no espelho, tamanha a pressa que temos em atrasar os relógios. Tememos os nossos fantasmas e o fracasso que arrasta nossos passos em meio a multidão com seus delírios internos. Folheio meu caderno, rabisco frases e idéias esparsas, como num mosaico, meu quebra cabeça ainda não tem solução previsível. Meus temores e meus olhos perdidos num canto qualquer do pensamento, que vaga como bicho assustado diante do que me faz perplexo e do que me faz pequeno. Fico calado pra escutar melhor as minhas inquietações. Me vejo forte , me vejo fraco, me encontro em lugar nenhum e ainda assim sinto que percorri caminhos que somente minha alma recorda. Estou a mais de um ano longe de onde nasci, lugar que inaugurei sem festa nem fanfarra. Estou longe do que chamo passado, estou a um segundo do carinho que aqui me trouxe. Estou entre o poeta e o cronista, rimando com a sutileza de uma brisa de verão. Estou na busca e na tentativa diária de saber quem sou e entender o porque das coisas que me trouxeram a esse novo país. Bem sei que tudo seria mais simples se aceitasse sem reclamar, sem indagar razões e porquês. Minha alma peregrina vaga em ante-salas e corredores, ela fala do que aprendeu pela metade e do que já esqueceu .Minha alma imigrante viaja sem sair do lugar. Minha alma verde e amarela se preocupa com o futuro desse país que ficou do outro lado do oceano Atlântico. Sinto que há algo mais no ar. Palavras e intenções. O que os jornais não imprimiram, o que os noticiários não esclareceram. Nosso país está em mutação, em ebulição. Tememos ás vezes que esse cordão umbilical imaginário seja partido e nos sintamos órfãos de um país que a cada estágio parece cada vez mais sem rumo. E em meio ao turbilhão de coisas que nos acontece, aquela volta, o retorno tão sonhado é adiado mais uma vez, e nosso resgate parece mais longe. O Brasil que um dia deixamos pra trás era outro, problemas quase iguais, sempre entregando ao futuro o que não pudemos fazer no tempo presente. Nos sonhos e nossos projetos que plantamos numa semente cheia de esperança. Nos fazemos fortes e deixamos o lado passional guardado num lugar qualquer do peito e da memória.
Nossa mente divaga e até reconhecemos cheiros familiares, odores , parece até que estamos em casa. Mas tudo não passa de ilusão momentanea. Na dureza desses dias de chumbo, na vida dwe imigrante, no sucesso tímido e ansiado, seguimos acreditandoe fazemos a nossa sorte. Sem medo de arriscar , de tentar de novo e sempre. Sem receio de acertar e lá bem no fundo sentimos que esse era o nosso destino desde o começo.
No cair da tarde, o dia parece mais cansado do que ontem. O vento uiva seu canto solitário e a chuva me faz esquecer que o frio está do lado de fora e não aqui dentro.
Mais um final de semana, mais um sábado e um domingo pra lembrar que foi pouco. Segunda-feira e a nossa eterna preguiça; o lençol me abraça mais apertado e fica difícil desgrudar daquele calorzinho, entre texturas e cochilos passam as horas e o despertador toca mais uma vez.
Agora tudo parece mais real e até pareço mais velho no reflexo do espelho embaçado. Barba por fazer, cabelo por enxugar. Rotina e gestos repetidos. A boca simula um sorriso e saímos do transe, na trama dos dias e dos meses, dos anos que se perdem, das experiências compartilhadas, dos livros que ficaram por serem lidos na estande. Percebo que todos dias nos permitimos tão pouco, prometemos um dia inteiro pra nada fazer, apenas relaxar. Mas no círculo vicioso, emendamos a sexta –feira com a segunda seguinte e ansiamos por férias antecipadas. Queremos fugir da chuva e dos dias nublados e do frio que se anuncia. Vivem os cada um a seu modo mais um final de semana.
- Ubiratan
Bira Malta
Cai a tarde como chumbo só pra dizer que um dia foi pouco. Corremos a semana inteira, vivemos de um lado pro outro. Mal enxergamos o nosso reflexo no espelho, tamanha a pressa que temos em atrasar os relógios. Tememos os nossos fantasmas e o fracasso que arrasta nossos passos em meio a multidão com seus delírios internos. Folheio meu caderno, rabisco frases e idéias esparsas, como num mosaico, meu quebra cabeça ainda não tem solução previsível. Meus temores e meus olhos perdidos num canto qualquer do pensamento, que vaga como bicho assustado diante do que me faz perplexo e do que me faz pequeno. Fico calado pra escutar melhor as minhas inquietações. Me vejo forte , me vejo fraco, me encontro em lugar nenhum e ainda assim sinto que percorri caminhos que somente minha alma recorda. Estou a mais de um ano longe de onde nasci, lugar que inaugurei sem festa nem fanfarra. Estou longe do que chamo passado, estou a um segundo do carinho que aqui me trouxe. Estou entre o poeta e o cronista, rimando com a sutileza de uma brisa de verão. Estou na busca e na tentativa diária de saber quem sou e entender o porque das coisas que me trouxeram a esse novo país. Bem sei que tudo seria mais simples se aceitasse sem reclamar, sem indagar razões e porquês. Minha alma peregrina vaga em ante-salas e corredores, ela fala do que aprendeu pela metade e do que já esqueceu .Minha alma imigrante viaja sem sair do lugar. Minha alma verde e amarela se preocupa com o futuro desse país que ficou do outro lado do oceano Atlântico. Sinto que há algo mais no ar. Palavras e intenções. O que os jornais não imprimiram, o que os noticiários não esclareceram. Nosso país está em mutação, em ebulição. Tememos ás vezes que esse cordão umbilical imaginário seja partido e nos sintamos órfãos de um país que a cada estágio parece cada vez mais sem rumo. E em meio ao turbilhão de coisas que nos acontece, aquela volta, o retorno tão sonhado é adiado mais uma vez, e nosso resgate parece mais longe. O Brasil que um dia deixamos pra trás era outro, problemas quase iguais, sempre entregando ao futuro o que não pudemos fazer no tempo presente. Nos sonhos e nossos projetos que plantamos numa semente cheia de esperança. Nos fazemos fortes e deixamos o lado passional guardado num lugar qualquer do peito e da memória.
Nossa mente divaga e até reconhecemos cheiros familiares, odores , parece até que estamos em casa. Mas tudo não passa de ilusão momentanea. Na dureza desses dias de chumbo, na vida dwe imigrante, no sucesso tímido e ansiado, seguimos acreditandoe fazemos a nossa sorte. Sem medo de arriscar , de tentar de novo e sempre. Sem receio de acertar e lá bem no fundo sentimos que esse era o nosso destino desde o começo.
No cair da tarde, o dia parece mais cansado do que ontem. O vento uiva seu canto solitário e a chuva me faz esquecer que o frio está do lado de fora e não aqui dentro.
Mais um final de semana, mais um sábado e um domingo pra lembrar que foi pouco. Segunda-feira e a nossa eterna preguiça; o lençol me abraça mais apertado e fica difícil desgrudar daquele calorzinho, entre texturas e cochilos passam as horas e o despertador toca mais uma vez.
Agora tudo parece mais real e até pareço mais velho no reflexo do espelho embaçado. Barba por fazer, cabelo por enxugar. Rotina e gestos repetidos. A boca simula um sorriso e saímos do transe, na trama dos dias e dos meses, dos anos que se perdem, das experiências compartilhadas, dos livros que ficaram por serem lidos na estande. Percebo que todos dias nos permitimos tão pouco, prometemos um dia inteiro pra nada fazer, apenas relaxar. Mas no círculo vicioso, emendamos a sexta –feira com a segunda seguinte e ansiamos por férias antecipadas. Queremos fugir da chuva e dos dias nublados e do frio que se anuncia. Vivem os cada um a seu modo mais um final de semana.
Nenhum comentário:
Postar um comentário