Recife, uma cidade doente
O recifense quase sempre não é consultado sobre o tipo de
cidade onde ele gostaria de viver nos próximos anos. Se fosse, possivelmente
expressaria o desejo de ter o direito de ir e vir - hoje limitado pela
quantidade absurda de veículos nas ruas -, de morar em um bairro saneado, sem
esgoto escorrendo a céu aberto no meio da rua e que oferecesse serviços
essenciais, saneamento, transporte, saúde e educação de qualidade, espaços
de lazer e um mínimo de segurança. A maioria dos bairros do Recife hoje peca em
pelo menos um item desses.
Construir em áreas já saturadas sem garantir a expansão da rede viária e de
saneamento está transformando a nossa cidade em um lugar insuportável para se
viver. É só tomar como exemplo o bairro de Boa Viagem, onde trafegar
nas ruas coalhadas de veículos e de esgotos estourados é um exercício de
paciência e também de embrulhar o estomago. O Recife ainda pode crescer
bastante. Mas talvez seja preciso mudar a direção.
Uma boa oportunidade para tentar mudar o
atual quadro está na revisão do Plano Diretor do Recife, que
está em discussão, em obediência à lei federal que criou o Estatuto da Cidade,
e é ele que definirá as diretrizes de uma política urbana voltada
para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. As discussões são
intermináveis e já duram mais de 5 anos, mas a participação popular,
infelizmente, ainda é ínfima. O cidadão recifense parece pouco interessado
em contribuir para a implantação de uma nova política urbana que defina, entre
outras coisas, a ocupação do solo, a convivência com o meio ambiente, a
regulamentação da construção civil, etc.
Até agora, a participação do fórum mais adequado para essas discussões - a
Câmara Municipal - tem ficado por conta de alguns poucos vereadores, dois
ou três, enquanto a maioria dos 36 parlamentares, eleitos para
trabalharem pelo Recife, fica alheia ou na contramão dos interesses da nossa
Cidade. As discussões sobre o Plano Diretor está em plano secundário,
perdendo espaço para questões menores, a maioria que trata exclusivamente
de interesses particulares dos integrantes daquela casa.
Excluídos, por desinteresse ou desinformação, das discussões sobre o futuro de
sua cidade, os recifenses, pelo menos a maioria, imprimem o tom
passional as questões de interesse da cidade, e só lembram que existe
uma gestão municipal quando recebem o carnê do IPTU para pagar. Participar
efetivamente da reconstrução de uma política urbana, não é com eles.
Recife, e acredito que assim o seja em todo o país, é na verdade duas
cidades em uma. A primeira é cosmopolita, com seus imponentes edifícios, seus
projetos empreendedores e inovadores, sua cultura, sua educação. A outra,
que até parece ser uma desconhecida para muitos, com poucas
exceções, é miserável, suja, fétida, sem saneamento ou mesmo luz elétrica.
Esta segunda cidade só é percebida quando a violência por ela incubada
atinge a primeira cidade. Vendo por este prisma, entendo que enquanto a
sociedade ignorar que é formada por partes e que cada uma destas partes têm uma
importância fundamental na existência do todo, não haverá um desenvolvimento
verdadeiro na qualidade de vida em qualquer um destes tão distintos mundos.
Todos querem resolver o problema do todo, mas em sua grande maioria, não
conseguem pelo simples fato de esquecer as partes.
Por esse motivo a nossa cidade é uma das poucas capitais do país
com índices alarmantes de doenças infecto-parasitárias causadas pela
falta de saneamento básico e cuidados com a coleta e destino do
lixo. A cidade do Recife exala um odor fétido, é doente, cheia de
insetos e roedores - o paraíso das farmácias e dos consultórios
médicos. Isso porque saneamento básico é obra invisível, não enche os
olhos dos eleitores, não dá voto. Estradas, avenidas, viadutos, aeroporto
moderno é que sim. Infelizmente.
Adroaldo
Figueiredo, Boa Viagem
adrofig@ig.com.br
Olá Adroaldo,
ResponderExcluirExcelente artigo!
Na minha lista de contatos está tb o Luciano Siqueira (vice). Se calhar ele já colocou as nossas mensagens como SPAM, o que é uma pena, pois ele bem que poderia ler e contribuir um pouco mais com a nossa cidade..
Abs,
Francy