quinta-feira, 6 de outubro de 2005

ESTAÇÕES DA VIDA...por Bira Malta

Estações da vida

Bira Malta

Vejo pessoas na estação como quem espera um resgate, uma súbita ajuda que as tire do transe. No casaco, na bagagem que pesa, o que trouxemos e o que se leva. Há tanto a ser respondido. No frio que sopra e no dia cinzento, ansiamos por ares mais quentes, um peito mais feliz, uma vida mais descomplicada.



 Em cada estação, passos apressados, bolsas, malas e outras tralhas. Vejo o imigrante aflito no rosto amassado,da noite mal dormida, na barba por fazer, na roupa amarrotada. Vejo o imigrante que varre o chão, sua roupa esverdeada e seu gorro vermelho, onde África e Europa se mesclam. Vejo também bicicletas que embarcam comigo nessa curta viagem. Como todo forasteiro me sinto triste e me sinto alegre sem uma razão mais aparente.



Tenho meus humores, e nos lábios ressecados ainda vislumbro o meu sorriso inocente e generoso de outrora. Os trilhos querem contar uma outra história , ainda quero saber quem sou nesse novo contexto, em todo preço que pagamos,nos erros e acertos, eu sobrevivo mais um dia. Um pouco lírico , um pouco triste, um pouco alegre, desfragmentado.



Há outros mosaicos a serem montados, decifrar hieróglifos, iluminar meus quartos escuros, fazer meus caminhos e trilhas, perder certos medos de quem vê a vida por um prisma diferente, num mundo quase perfeito.

Nossa viagem de trem continua nas paisagens apressadas, nos carros que correm em outras direções; no túnel, na curva, no trilho, na rota, na porta que se abre e no ranger das engrenagens. Tudo passa sem sair do lugar, o trem cumpri sua rotina e cumprimos nós nossa sina em cada sinal que a vida nos dá. Na teia que tecemos e nos enredamos, nas tragédias menores, nas perdas , nas dores caladas, no olhar que anseia outras compensações.

Ás vezes o frio externo se impregna na alma e toda calma se esvai como rio invadindo outras terras, desconhecendo fronteiras. Nos postes, nas pontes, no concreto. Estamos em tudo e em nada. Não temos palavras pra dizer o que nos falta, só a coragem guardada no escaninho da alma onde todo amor sobrevive e vive nutrido pela saudade e pelo carinho que nunca é demais.

Perdemos por vezes o nosso próprio reflexo pra entender essa realidade que escolhemos. Os anos nos conferiram uma sabedoria cotidiana, uma paciência disfarçada, um jeito meio indiferente de fazer de conta que certas coisas não nos afligem mais.



Nossos passos se tornaram mais firmes ao mesmo tempo que nossos sapatos ficaram mais velhos e macios. O que sopra agora não é mais o vento, mas a brisa que a memória refresca e as lembranças que nunca morrem.



Bira Malta

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