domingo, 30 de outubro de 2005

POR TODAS AS HORAS - Crônica da Via Brazuca



Por Todas as horas



Bira Malta



Logo de manhã deixo-me envolver pelas imagens na tela fria da tevê,
na mudança de canais e sou invadido por um mundo de vozes e idiomas. Meu
mundo se super dimensiona e palavras, frases, expressões invadem a
minha mente causando-me outras impressões. Meu vocabulário se expande e
em tudo que me chega de forma arbitrária é absorvido como esponja a
sugar líquidos e outros resíduos. Na vida de imigrante passamos fases
como diria uma amiga brazuka, a vida com suas andanças, seus atalhos e
suas trilhas; caminhos nem sempre retos. A vida de imigrante
reconhecendo as mudanças e esquecendo quem somos por um período não
exato e num dado momento vamos em busca do resgate da nossa
originalidade , das raízes que nunca se perderam, mas se escondem nas
indagações e nas adaptações necessárias a essa nova vida, num país de
outras línguas e vários sotaques.
É de manhã e a chuva que ontem caiu, hoje não veio. Mas mesmo
assim o vento ainda rouba nomes, e seus gemidos falam desse outono de
ventos mais frios. Na vida de imigrante que todo dia recomeça , quem
sou eu e quem é você brazuka que de tantas lutas sem medalhas, já até
se acostumou a falar menos e escutar mais. Quem é você brazuka que
encolhe os ombros e se proteje da ventania enquanto a chuva não vem.
Nos olhos castanhos de tantos outros imigrantes reconhecemos as
diferenças e nem por isso sentimos os sapatos menos apertados. Tudo é
metáfora, tudo é imaginação, tudo é duro na realidade que não cessa de
nos pedir mais e mais. Estamos agora na fase de nos rendermos á língua
que arranha e que não é novidade nenhuma pra nós. Estamos na fase de
acalmar nossos medos e levantar a cabeça e nunca esmorecer; pisando com
cuidado a cada passo e sem parar nem reclamar do cansaço. Irmos em
frente, pois atrás vem gente, e antes de nós tantos outros já estiveram
no mesmo lugar. Uns ficam um pouco mais e outros vão em busca de um
Brasil mais justo que não cresceu ainda. Na sina de imigrante , nossas
escolhas parecem um bilhete de viagem só de ida, pois enquanto não
completamos essa história, nada se acaba e tudo recomeça no dia
seguinte. Quem nos assiste, quem nos convida e quem compartilha prantos
e alegrias nunca iguais. Nos novos amigos, cada um tem sua história e
cada um tem suas contradições. Superaram a fase das reclamações e o que
nos identifica: língua, jeito de ser, cadência, molejo e aquele
jeitinho. Hoje nada funciona porque mesclamos aprendizado, e no que
fomos assimilados , assimilamos muito mais. Nos livros que lemos por
imposição e nos que hoje folheamos por pura curiosidade, há uma
diferença tamanha no gesto e na motivação. Estamos quase prontos pra
quase tudo e no quase nada, estamos mais adultos, maduros e puros de
uma certa forma. Nada nos prende nem a língua nem as urgências da
sobrevivência; estamos fazendo escolhas baseadas no que seria e será
melhor pra nós. Estamos dispostos a recomeçar quando quer que seja. Nem
areia nos olhos nos faz chorar. Nem o vento mais frio, nem o cobertor
que ás vezes nos falta. Abrimos a mala e o baú de memórias e pra nossa
surpresa não nos reconhecemos mais . Aliás somos um outro imigrante ,
menos ingênuo e mais forte , menos aflito e mais confiante, menos
espantado e mais natural. O mundo externo dessa nova -velha Europa não
nos assusta mais. Nem a frieza nem o olhar desconfiado por de trás do
brilho azul de certos olhos nublados. Já pagamos bem alto todas as
taxas por morarmos numa terra de costumes outros.Já pagamos todos os
preços e hoje temos o direito de sermos aceites e nos aceitarmos com
limitações e diferenças aparentes. Somos todos seres humanos com
virtudes e pecados e com nossos momentos únicos quando abrimos os
braços e entedemos a imensidão do universo dentro e fora de nós.




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