quinta-feira, 10 de novembro de 2005

VIDA DE IMIGRANTE...



VIDA DE IMIGRANTE



Caleidoscópio



Crônica de Bira Malta



                        Hoje vejo uma nova Europa com certos velhos conceitos; protecionismo, fronteiras mais estreitas e olhar mais apurado. Vejo países que fazem tratados e no comércio diário outros interesses predominam.Vejo todos os dias imigrantes legais e ilegais, correndo atrás de uma chance de uma vida melhor. Uns chegam com suas nacionalidades duplas, ambíguo modo de vida, outros com casamentos e filhos, gerações que contam histórias de mais de duas décadas atrás. Há aqueles ainda que vem tentar a sorte, disfarçados de turistas acabam ficando mais um pouco naquilo que parecia ser uma ponte pra atravessar mais uma fronteira. Não é filme , nem novela, mas vida real, de quem chora e ri e de quem tem olhos assustados, mudando de endereço como quem muda de roupa; alguns fugindo do controle de imigração. A vida não é fácil pra nenhum de nós, legais ou ilegais, naturalizados ou não. Há sempre regras a serem seguidas, leis restringindo a mobilidade, palavras engasgadas na garganta. Há também aqueles que depois de anos vivendo fora do país de origem visitam parentes e familia nas férias, fingindo do frio, do manto branco que cobre as terras do norte no inverno. Outros já de volta ao local de origem relembram o tempo difícil e árduo e tudo que aprenderam. Esse foi um tempo sem volta e hoje se perguntam se fariam tudo de novo. Nesse processo de reconhecimento de si mesmo somos mais uma face na multidão, somos mais um nome no formulário, somos João e Maria e somos da Silva e dos Santos. Na verdade somos únicos e com nossos erros e acertos, somos ainda humanos, sensíveis e guerreiros sim.

                       Ontem no cair da tarde, no caminho de casa, pelas ruas estreitas, no semáforo, na ponte que atravessei eu era você com minhas inquietações, minhas dúvidas, minha fé, meus projetos; com as mãos escondidas no bolso do casaco tentando esquentar os pensamentos e aclarar ideias. Hoje de manhã com meus passos apressados, folheando o jornal, no trem, na esquina, no ponto de ônibus eu era como você imigrante, no coração mais jovem, na memória, no sorriso tímido que nasce inesperadamente quando relembramos algo bom e engraçado que num canto da memória acalenta outros anseios.

                        O caleidoscópio gira mais uma vez em cores e movimentos vários e outras imagens nos perseguem. Somos ainda tão puros e inocentes numa terra que nos ensina a sermos individualistas na acepção mais pura da palavra. Temos saudade de casa, do que era bom e ao mesmo tempo duro de ser vivido; lembramos o que achávamos errado: política, políticos, leis, inflação, violência, fome e desemprego. Hoje nossa visão é mais ampla e o Brasil que vemos na tevê está tão longe do mundo que habitamos. Não há engano e não mais nos enganamos com a aparência das coisas e das pessoas. Vida de imigrante é sempre diferente e igual, é sempre um desafio. Nossas forças se renovam quando superamos e somos postos á prova um dia de cada vez. Por isso deixei de achar demais pra tentar entender meus porquês sem complicações. O que nos faz autênticos é o que não se perdeu com os anos, o que ainda fala da essência e da substância da qual somos feitos.

                            O melhor de nós nunca se perde se aprendemos a conservar lá no mais íntimo da nossa memória afetiva as coisas que sempre nos fazem vibrar de alegria , no mais puro que há e no que de tão simples se faz mais precioso. A vida de todos nós é feita de esperas e esperanças, um punhado de sonhos, sorrisos e lágrimas ao longo da jornada. Ali onde tudo perdura, onde a vida vira um rio e onde aprendemos a navegar. Náufragos de nós mesmos, somos barco e remo e somos o salva-vidas das nossas ambições positivas.         



                            Nossa carta de alforia espera o tempo certo pra ser assinada. Tudo é conquista, dureza do ferro frio, do vento que sopra e machuca, da luta que nunca termina. Nossa sina e nosso verbo mais doce, o que não se embrutece nem perde a ternura. Vida dura de imigrante, vida de quem constrói balões feitos de ar e de sonhos outros. Nas múltiplas visões desse caleidoscópio, eu aposto que um dia nos encontraremos um pouco mais felizes com as escolhas que fizemos a muito tempo atrás.


Bira Malta
www.biramalta.com

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