sexta-feira, 8 de setembro de 2006

SENADOR JEFFERSON PERES




Pronunciamento do
Senador Jefferson Peres em 30.08.2006 no plenário do Senado
Federal.


Sr. Presidente,
Srªs e Srs. Senadores, depois de uma longa ausência de algumas semanas, volto a
esta Tribuna para manifestar o meu desalento com a vida pública deste
País.

Gostaria de estar
aqui discutindo, a respeito das riquezas naturais do Brasil, e não como falarei,
sobre algo muito pior: a dilapidação do capital ético deste
País.

Senador José
Jorge, poderíamos não ter um barril de petróleo nem um metro cúbico de gás, mas
poderíamos ser uma das potências mundiais em termos de
desenvolvimento.

O Japão não tem
nada. Não tem petróleo, gás ou riquezas minerais. A Coréia do Sul também não tem
nada disso, e nos dá um banho em termos de desenvolvimento não apenas econômico,
mas também humano.

O que está
faltando mesmo a este País e sempre faltou é uma elite dirigente com compromisso
com a coisa pública, capaz de fazer neste País o que precisaria ser feito:
investimento em capital humano.

Vejam que País é
este. Estamos aqui com seis Senadores em pleno mês de agosto, porque estamos em
recesso branco. Por que não se reduz a campanha eleitoral a trinta dias e
transfere-se o recesso de julho para setembro? Nós ficaríamos com o Congresso
aberto, de Casa cheia, até 31 de agosto. Faríamos trinta dias de campanha em
recesso oficial, remunerado.

Estamos aqui no
faz-de-conta. Como disse o Ministro Marco Aurélio, este é o País do
faz-de-conta. Estamos fingindo que fazemos uma sessão do Senado, estamos em casa
sem trabalhar. Estou em Manaus há quase um mês, recebendo, sem fazer nada para o
Congresso Nacional, pelo menos. Como se ter animação em um País como este com um
Presidente que, até poucos meses atrás, era sabidamente como o é um Presidente
conivente com um dos piores escândalos de corrupção que já aconteceu neste País
e este Presidente está marchando para ser eleito, talvez, em primeiro turno? É
desinformação da população? Não, não é. Se fizermos uma enquête em qualquer
lugar deste País, todos concordarão, ou a grande maioria, que o Presidente sabia
de tudo. Então, votam nele sabendo que ele sabia. A crise ética não é só da
classe política, não. Parece que ela atinge grande parte da sociedade
brasileira. Ele vai voltar porque o povo quer que ele volte. Democracia é isso.
Curvo-me à vontade popular, mas inconformado. Esta será uma das eleições mais
decepcionantes da minha vida. É a declaração pública, solene, histórica do povo
brasileiro de que desvios éticos por parte de governantes não têm mais
importância.

Isso vem até da
classe dos intelectuais, dos artistas. Que episódio deplorável aquele que
aconteceu no Rio de Janeiro semana passada! Artistas, numa manifestação de
solidariedade ao Presidente, com declarações cínicas, desavergonhadas! Um
compositor dizer que "política é isso mesmo, fez o que deveria fazer", o outro
dizer que "política é meter a mão na 'm...'"! Um artista, em qualquer país do
mundo, é a consciência crítica de uma nação. Aqui é essa, é isso que é a classe
artística brasileira, pelo menos uma grande parte dela, é o povo conivente com
isso.

E pior, pior
ainda: os artistas estão fazendo isso em interesse próprio, porque recebem de
empresas públicas contratos milionários - isso é a putrefação moral deste País
-, e o povo vai reconduzir o Presidente porque "política é isso
mesmo".

Tenho quatro anos
de Senado. Não me candidatarei em 2010, não quero mais viver a vida pública. Vou
cumprir o mandato que o povo do Amazonas me deu, não vou silenciar. Ele pode ser
eleito com 99,9%. Eu estarei aí na tribuna dizendo que ele deveria ter sido
mesmo destituído.

O que ele fez é
muito grave. É muito grave. Curvo-me à vontade popular, mas não sem o sentimento
de profunda indignação. A classe política já nem se fala, essa já apodreceu há
muito tempo mesmo. Este Congresso que está aqui, desculpem-me a franqueza, é o
pior de que já participei. É a pior legislatura da qual já participei. Nunca vi
um Congresso tão medíocre. Claro, com uma minoria ilustre, respeitável, a quem
cumprimento. Mas uma maioria, infelizmente, tão medíocre, com nível intelectual
e moral tão baixo, eu nunca vi. O que se pode esperar disso aí? Não sei. Eu não
vou mais perder o meu tempo. Vou continuar protestando sempre, cumprindo o meu
dever. Não teria justificativa dizer que não vou fazer mais nada. Vou cumprir
rigorosamente o meu dever neste Senado até o último dia de mandato, mas para cá
não quero mais voltar, não!

Um País que tem
um Congresso desses, que tem uma classe política dessas, que tem um povo...
Dizem que político não deve falar mal do povo. Eu falo, eu falo. Parte da
população que compactua com isso? É lamentável. E que sabe. Não é por
desinformação, não. E que não é só o povão, não. É parte da elite, inclusive
intelectual. Compactuam com isso é porque são iguais, se não piores. Vou
continuar nessa vida pública? Para quê, para mim,
chega!

Vou continuar
pelejando pelos jornais e por todos os meios possíveis, mas, como ator na vida
política e na vida pública deste País, depois de 2010, não quero mais! Elejam
quem vocês quiserem! Podem chamar até o Fernandinho Beira-Mar e fazê-lo
Presidente da República - ele não vai com o meu voto, mas, se quiserem,
façam-no.

O meu desalento é
profundo. Deixo isso registrado nos Anais do Senado Federal. Infelizmente, eu
gostaria de estar fazendo outro tipo de pronunciamento, mas falo o que penso,
perdendo ou não votos pouco me importa.
Aliás, eu não quero mais votos mesmo, pois estou encerrando a minha vida pública
daqui a quatro anos, profundamente desencantado com
ela.



Muito obrigado,
Sr. Presidente.



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