sexta-feira, 15 de outubro de 2004

Um justo....

Alberto Frederico Lins
Escritor

Ao passar na serra das Ru�as, outro dia, vi, andando na beira da estrada, um desses tipos sem rumo de vida, andrajoso, os cabelos escorridos
alourados de poeira e detritos, sem passado, presente ou futuro.
Curioso de saber o que pensava uma criatura assim, no �ltimo degrau da mis�ria, sem identidade ou liga��o social com quem quer que fosse,
parei meu Fiat mais na frente, e, saltando, esperei-o. Ao aproximar-se,
falei-lhe:
� - Seu Z�, poderia dar-me uma informa��o?
Respondeu: - Diga.
Prossegui: - � o seguinte: sou professor de Hist�ria e Psicologia e
gostaria que me dissesse no que vinha a pensar, quando o avistei ali atr�s. �
apenas para um estudo pessoal; nada de importante.
Olhando-me nos olhos, o mendigo sentou-se na eleva��o do cascalho;
tirou do ombro uns restos de cobertor t�o sujos quanto ele pr�prio, e
Respondeu-me:
� - Pensava, meu senhor, num cachorrinho dogue, que, ontem de
tarde, encontrei ferido na rodovia a� em baixo, perto de Pombos. Um carro quebrara-lhe os quartos traseiros.
Estava ali para morrer, sozinho. Puxei-o mais para o mato e
ajeitei-lhe a cabe�a no meu colo. Olhava-me e gemia bem baixinho. �s vezes
balan�ava a ponta do rabo.
Acomodei-o, como gostaria que fizessem comigo. E fui, bem
devagarinho, passando-lhe a m�o direita sobre os quartos, e ele, como se
entendesse, ficou parado, a estremecer aqui e ali. Vi que estava morrendo e
comecei a cantar-lhe algumas dessas m�sicas que se ouvem por a� e as m�es
ciciam para os filhos, enquanto acariciava-lhe a cabe�a. E assim, algumas horas
depois, olhando-me, morreu. Enterrei-o ali mesmo, e, como a noite se fosse
fechando, arranchei-me no barranco e dormi perto. S� hoje comecei a subida da
serra.
Era, meu senhor, na dor daquele bichinho que vinha pensando, quando o
senhor me parou.
-Estava pasmado! N�o era riqueza ou poder no que aquele homem pensava!
E nem em injusti�a social ou �dio a seu semelhante. Incr�vel! Pensava no
amor e na compaix�o!
Tinha, diante de mim, um filho de Deus. N�o desses sepulcros caiados,
iguais a mim, mas um ser bom, puro, misericordioso nos andrajos da sua fome
e necessidades eternas. N�o pensava em si ou no vazio de sua caminhada
in�til do nada para cousa alguma; sentia, sim, piedade de um pobre
animalzinho irracional, ferido de morte e presa da dor angustiante, e que lhe
morreu no aconchego dos bra�os fr�geis.
Pensei ent�o, comigo, a lembrar Junqueiro no poema O Melro: "Tudo que
existe � imaculado e santo / H� em toda mis�ria o mesmo pranto / E em todo
o cora��o h� um grito igual / (...) S� hoje advinho, / Ao ver que a alma tem a mesma ess�ncia, / Pela dor, pelo amor, pela inoc�ncia / Quer guarde um ber�o, quer proteja um ninho! / S� hoje sei que em toda criatura, / Desde a mais bela at� a mais impura, / Ou numa pomba, ou numa fera brava, Deus habita, Deus sonha,
Deus murmura !...
Dei-lhe dez reais e pedi-lhe:
Permita-me apertar-lhe a m�o?
Fitou-me, como se n�o entendesse. Insisti. Deu-me a m�o.
Apertei-a e senti, ao partir, que estivera diante de um justo,
daqueles que Jesus se honrava de ter como irm�o.

Artigo��publicado no Di�rio de Pernambuco - 06/12/2003







Nenhum comentário:

Postar um comentário