segunda-feira, 7 de março de 2005

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


Por antecipação já estou falando sobre o Dia Internacional da Mulher, amanhã, 08 de março....
As homenageadas somos todas nós mulheres de ontem e de hoje e as que virão.....

Mulher ao espelho - Cecília Meireles

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.
Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?
Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

A lucidez perigosa - Clarice Lispector

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.
Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

Mulher da Vida - Cora Coralina

Mulher da Vida, minha Irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.

Ela vem do fundo imemorial das idades e
carrega a carga pesada dos mais
torpes sinônimos,
apelidos e apodos:

Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.

Mulher da Vida, minha irmã.
Pisadas, espezinhadas, ameaçadas.
Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.

Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis.
Sobreviventes.

Possuídas e infamadas sempre por
aqueles que um dia as lançaram na vida.
Marcadas. Contaminadas,
Escorchadas. Discriminadas.

Nenhum direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como erva cativa dos caminhos,
pisadas, maltratadas e renascidas.

Flor sombria, sementeira espinhal
gerada nos viveiros da miséria, da
pobreza e do abandono,
enraizada em todos os quadrantes da Terra.

Um dia, numa cidade longínqua, essa
mulher corria perseguida pelos homens que
a tinham maculado. Aflita, ouvindo o
tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras,
ela encontrou-se com a Justiça.

A Justiça estendeu sua destra poderosa e
lançou o repto milenar:
“Aquele que estiver sem pecado
atire a primeira pedra”.

As pedras caíram
e os cobradores deram as costas.
O Justo falou então a palavra de eqüidade:
“Ninguém te condenou, mulher...
nem eu te condeno”.

A Justiça pesou a falta pelo peso
do sacrifício e este excedeu àquela.
Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada,
ela é a muralha que há milênios detém
as urgências brutais do homem para que
na sociedade possam coexistir a inocência,
a castidade e a virtude.

Na fragilidade de sua carne maculada
esbarra a exigência impiedosa do macho.
Sem cobertura de leis
e sem proteção legal,
ela atravessa a vida ultrajada
e imprescindível, pisoteada, explorada,
nem a sociedade a dispensa
nem lhe reconhece direitos
nem lhe dá proteção.

E quem já alcançou o ideal dessa mulher,
que um homem a tome pela mão,
a levante, e diga: minha companheira.
Mulher da Vida, minha irmã.

No fim dos tempos.
No dia da Grande Justiça
do Grande Juiz.
Serás remida e lavada
de toda condenação.

E o juiz da Grande Justiça
a vestirá de branco em
novo batismo de purificação.
Limpará as máculas de sua vida
humilhada e sacrificada
para que a Família Humana
possa subsistir sempre,
estrutura sólida e indestrurível
da sociedade,
de todos os povos,
de todos os tempos.

Mulher da Vida, minha irmã.

Eu... - Florbela Espanca

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

6 comentários:

  1. Francy!

    Estou arrepiada da cabeça aos pés! Que homenagem maravilhosa! Mulheres lindas que sabiam e sabem ser "mulher"

    Sinto-me feliz sendo mulher, nunca, jamais, em tempo algum desejei ser homem. A coisa mais maravilhosa nessa vida é ser feliz como somos, fisica, mental e espiritualmente e isso eu sou, pois amo ser mulher. Feminina, frágil de aparência e gestos. Jamais quis imitar os homens em nada. Homens são homens e gosto deles, mas jamais quis ser como eles. Infelizmente há muitas mulheres perdendo a feminilidade, chamando palavrão e cuspindo de lado e só não coçam o saco porque não têm mesmo..rss Isso não é ser moderna, é ser tola, pois podemos ser tudo o que quisermos sem perder a feminilidade e a meiguice.

    Beijinhos

    Ariadna

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  2. Amiga,
    Você é demais++++++.
    Penso que todos observam todos. Acho que quem nos observa vê claramente o quanto gostamos de ser mulher. Adoro e acho lindo muitos homens, o meu é lindo...aahahahah....... entretanto jamais quero ser como eles !! concordo com você em gênero, numero e grau.....
    Valeu querida,
    Beijinhos,
    Francy

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  3. Pois è Miga, ja tinha lido la no blog, e dirigido comentario à pessoa errada, endoidei, risos, mas gostei da tua coletania, e das imagens.
    Beijos
    Meire

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  4. Nós merecemos todas essas homenagens.....
    Amanhã com chuvas, sem chuva, sem neve, pois esta já acabou por aqui e com ou sem sol, vamos passear, eu e o Marido....
    Merecemos,
    Beijinhos,
    Francy

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  5. Franxy, o problema è que os lugares estao cheios de mulherada..voce nao encontra nenhum cantinho romantico liberado...hehehe
    beijos

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