sábado, 3 de junho de 2006

A Holanda do baseado, dos moínhos e do racismo


Quinta-feira, 1 de junho de 2006



28 de maio / 2006 - 19h30




A Holanda do baseado, dos moínhos e do racismo




Por Rui Martins, de Berna...





Ah, a Holanda dos moínhos, das vaquinhas, dos canais,
das barragens e das tulipas, agora está se transformando na Holanda das
expulsões maciças de estrangeiros. Quem é árabe ou negro não tem mais a
chance de ver o mercado das prostitutas de Amsterdã ou de fumar um
baseado num café. Mais um pouco e volta aquela época em que os condenados e
as bruxas ficavam expostos na praça pública.

Faz algum tempo, a Holanda, país de marinheiros e
mulheres mandonas, se transformou no paraíso das pequenas ilegalidades, um
pedaço do céu em plena terra roubada ao mar. Mas como dizem, "não há
mal que sempre dure (é nossa esperança) e bem que nunca se acabe", a
Holanda se transformou num piscar de olhos num capítulo infernal na vida
dos imigrantes estrangeiros.

Graças a uma mulher de rosto duro e cara fechada, a Rita
Verdonk, que não tem nada a ver com a nossa Rita Lee. Criminalogista e
ex-diretora de presídio, a cinquentona Rita está se saindo melhor que o
suíço Christoph Blocher, e que o francês Jean-Marie Le Pen, felizmente até
hoje fora do poder. Rita de Ferro, seu apelido, é ministra da Imigração e
da Integração, nos Países Baixos, como também chamam a Holanda, e agora
nome bem merecido porque o tranquilo país das belas tulipas volta a ser
manchete pelas baixarias de sua ministra.

A pretexto de aplicar a lei, dôa a quem doer, ela age
como um trator em cima dos estrangeiros. Pobres dos brasileiros que foram
tentar achar um lugar ao sol, na nevoenta e úmida Holanda. Se não tinham os
papéis em ordem, devem estar preparando as trouxas ou já foram expulsos sem
ter tempo de pegar o que deixaram em casa.

Da fúria de Rita não escapou nem a negra Ayaan Hirst
Ali, de origem somaliana, que de estrangeira exilada tinha chegado a obter
a nacionalidade holandesa e mais ainda - um lugar de deputada no
Parlamento. Ora, a somaliana de extraordinária inteligência, que aprendeu o
idioma holandês (conhecido como gargarejo) em tempo recorde, cometeu uma
falha: contou num programa de televisão ter dito algumas mentiras ao
serviço de imigração ao pedir asilo na Holanda.

Imediatamente, a ministra de ferro anulou seu passaporte
e Ayaan Hirsi Ali, nesta altura, já foi viver nos EUA, onde conseguiu asilo
em Washington. Porém, se não
tivesse obtido esse asilo, Hirsi seria expulsa para a Somália e se tivesse
de ir catar papel, dona Rita estaria pouco ligando.

Dona Rita de Ferro, que está destruindo a bela imagem do
país dos moínhos, da eutanasia e da pornografia livre em Amsterdã, já jogou
do outro lado dos canais, 26 mil estrangeiros, alguns vivendo há muitos
anos na Holanda à espera de uma autorização definitiva.

E quer expulsar até um jogador de futebol do Feynoord de
Roterdã, Salomon Kalou, apesar de ser um protegido pela federação
holandesa, cuja intenção era de naturalizar o jogador holandês para ser
incluído nesta Copa do Mundo. Deu zebra, como última alternativa, o negro
Salomon entrou com recurso na justiça contra sua expulsão, mas talvez tenha
de ir jogar em outro país, já em junho.

O método de dona Rita é digno do tempo da ocupação da
Holanda, na Segunda Guerra, pois autoriza a vinda à Holanda de policiais
dos países de onde são originários os requerentes de asilo e expulsou para
Bagdá os iraquianos que esperavam um asilo na Holanda.

Rita de Ferro, apesar de detestada por muitos
holandeses, e provavelmente pelos que estão lendo este artigo, não é uma
exceção na Europa. Na Suíça, também idílica, o ministro da Justiçam
Blocher, só não faz pior porque até agora não pôde, mas sua lei
anti-imigrantes não fica longe da holandesa.

O ministro do Interior francês, Nicolas Sarkozi
conseguiu um lei pela qual só vai entrar na França quem for imigrante
qualificado. O presidente do Mali, país africano, já protestou -
"vivemos na miséria, fazemos um esforço enorme para educar e dar
universidade a alguns de nossos cidadãos e é justamente com esses que a
França quer ficar ".

É verdade, nenhum país rico aplica nos países favelados
africanos um plano de desenvolvimento que acabaria com a emigração para a
Europa. Mal comparando é a mesma história das favelas que circundam as
metrópoles brasileiras. E, no fundo, sairia mais barato e seria mais
seguro.

Rui Martins, jornalista, é
autor do Dinheiro Sujo da Corrupção, Geração Editorial, candidato ao
Jabuti.














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