sexta-feira, 30 de junho de 2006

A morte é uma piada...









Martha
Medeiros



21/06/2006

A morte é uma piada

Assisti a algumas
imagens do velório do Bussunda, quando os colegas do Casseta & Planeta deram seus depoimentos. Parecia que a
qualquer instante iria estourar uma piada. Estava tudo
sério demais, faltava a esculhambação, a zombaria, a
desestruturação da cena. Mas nada acontecia ali de risível, era só dor e
perplexidade, que é mesmo o que a morte causa em todos os que ficam. A verdade é
que não havia nada a acrescentar no roteiro: a morte, por si só, é uma piada
pronta. Morrer é ridículo.

Você combinou de jantar com a namorada, está
em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar
um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre.
Como assim? E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela
metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente?


Não sei de onde tiraram esta idéia: morrer. A troco? Você passou mais de
10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não
serviriam pra nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou
muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular
mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto
à profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez
foi em frente. De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um
delinqüente que gostou do seu tênis. Qual é?

Morrer é um chiste. Obriga
você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a
garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida.
Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no
varal, e penduradas também algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar
suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou
durante uma vida inteira. Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido
eu.

Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce,
caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e
talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços
por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num
sábado de manhã. Se faz check-up regulares e não tem
vícios, morre do mesmo jeito. Isso é para ser levado a sério?

Tendo mais
de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo
muito a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem
falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok, hora
de descansar em paz. Mas antes de viver tudo, antes de viver até a rapa? Não se
faz.

Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas.
Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só
que esta não tem graça.

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