domingo, 16 de julho de 2006

A DOR DE CABEÇA MORA AO LADO...


A dor de cabeça mora ao lado
No tempo em que mendigos pediam esmola de porta-em-porta, após a entrega de um pedaço de pão ou de qualquer outra dádiva, era comum ouvir deles uma prece em agradecimento, do tipo: - Deus lhe pague!, - Deus lhe dê muito mais! Na minha rua passava um cego muito alto e forte que fazia ecoar um sonoro: - Deus te livre da praga do mau vizinho!!!

Durante muito tempo, eu pensei que essa praga seria uma maldição, eventualmente lançada por algum vizinho ruim sobre a nossa casa. Com o passar dos anos e dezenas de vizinhos depois, vim a entender que aquele cego ia muito mais longe em sua profética bênção.

A praga do mau vizinho - da qual o pedinte agradecido desejava nos livrar - não era apenas uma praga verbal jogada contra nós. Essa praga poderia ser o próprio vizinho. A simples existência daquele ente nas proximidades já seria causa de aborrecimentos. Sua presença diminui, nada acrescenta. É danosa. Deprecia a vizinhança. É um ente estragando o ambiente. Uma praga, enfim!

Há vizinhos bons - felizmente, são a maioria - que se tornam nossos amigos. São educados, atenciosos, oferecem ajuda. Em alguns casos, chegam a preocupar-se com a formação de nossos filhos, cuidando de nos alertar quando observam eventuais desvios de comportamento deles. Zelam pelo bem-estar da vizinhança ou, simplesmente, convivem ali, de maneira discreta e harmoniosa, respeitando os outros.

Agem civilizadamente, sem prejudicar o próximo, nem perturbar a paz comum. Têm discernimento. Quando, por sua vez, julgam que se excederam em alguma atitude, pedem desculpas. Outros, preventivamente, nos avisam que vão fazer uma festinha e poderão incomodar. Alguns tipos, porém, são maus vizinhos. Sob esse rótulo estão não apenas os vizinhos maus, de mau caráter ou simples marginais, que moram ou viajam ao nosso lado. Incluem-se aqui pessoas físicas ou jurídicas que se acham donas do mundo. Que não levam em conta a existência dos outros. Estão pouco se lixando para essa caretice de cidadania, de espaço público, de bem comum. Eles poluem tudo em volta, às vezes com lama, mau cheiro, fumaça. Põem lixo na via pública, desfilam prepotência, arrogância. Interrompem o trânsito, fazem barulho, muito barulho, de preferência barulho infernal. Lembram, de certo modo, aquelas feras selvagens que delimitam seus territórios de dominação espalhando os próprios excrementos.

Quando esse vizinho mau é uma fábrica, uma oficina, um bar ou coisa do gênero, a gente até entende. Afinal, vivemos num mundo cão, consumista, onde a Lei de Gerson acaba de ser reforçada pela Lei do Zeca, no pagodinho da convivência urbana.

Duro mesmo é quando o mau vizinho é uma igreja - dessas que berram ritos tangendo bons espíritos para o reino do seu Deus. Pior, ainda, quando é uma escola. Ah! uma escola, que estaria se propondo a formar cidadãos e cidadãs civilizados, pessoas decentes! Em nosso meio, agora, há colégios de bom nome, destinados à fina flor da sociedade, empregando em seus freqüentes eventos uma mistura estridente de tambores, metais retorcidos e gritos lancinantes, tudo isso numa altura suficiente para estuprar os tímpanos de uma estátua. Depois vêm as competições esportivas. Berros, gritos, uivos, vaias e outras manifestações que mais parecem procedentes de alienígenas (ou seriam alienados?).

Se existem vizinhos ao lado tentando ensinar os deveres de casa ao filho pequeno; ou até outros estudantes tentando se concentrar nos livros; ou alguém estudando para um concurso público, que os diabos os carreguem..., pensam. Nós estamos no nosso pedaço, pagamos caro, temos direito de bagunçar. O nosso direito termina, tão somente, no limite da nossa intemperança.

Fico pensando no sábio, bom e velho Sócrates, condenado à morte sob a acusação de perverter a juventude!!! Já, agora, os nossos educadores... Que homens estarão formando?! Como essa elite de futuros líderes conviverá no espaço público? Como será sua relação com a natureza? Como pensará o bem-estar da comunidade? Eventualmente, como administrará o patrimônio público? E, ainda, que tipo de vizinhos serão?

Quando a própria escola vem a ser uma praga de mau vizinho, fica difícil ter esperança no progresso da sociedade.

Adroaldo Figueiredo

Um comentário:

  1. Sem sombra de dúvidas, posso citar como mau vizinhos o Colégio Boa Viagem, que agora é também Faculdade, e mais, o Santa Maria, o Geo e tantos outros que proliferam em Recife e no Brasil inteiro... e vemos como se comportam os pais dessas crianças quando vão buscar os filhos, fazem fila dupla e ainda são ousados e se acham os donos do pedaço. Tenho horror a pegar a Rua Bernardino Pessoa ai em Boa Viagem, quando preciso transitar ..... e até poderia citar muitos outros/outras.... afinal, deixa pra lá....

    ResponderExcluir