domingo, 2 de julho de 2006

KOFI ANNAN - COMO INVEJAMOS A COPA DO MUNDO




TENDÊNCIAS/DEBATES - Folha de São Paulo - 09/06/06




Como invejamos a Copa do Mundo -
KOFI ANNAN


VOCÊ PODE ESTAR se perguntando por que o secretário-geral
das Nações Unidas está escrevendo sobre futebol. Mas a Copa do Mundo faz com
que nós, nas Nações Unidas, morramos de inveja. Como o único jogo realmente
global, praticado em todos os países, por todas as raças e religiões, é um dos
poucos fenômenos tão universais quanto as Nações Unidas. Podemos até dizer que
é ainda mais universal. A Fifa tem 207 membros. Nós temos 191.


Na Copa do Mundo, os países participam em termos
eqüitativos. Duas qualidades importam nesse jogo: talento e trabalho em equipe


Mas existem outros motivos de inveja. Primeiro, a Copa do
Mundo é um evento no qual todos conhecem seus times e o que eles fizeram pra
chegar até lá. Todo mundo sabe quem fez um gol e como e quando ele foi feito,
conhece quem perdeu a oportunidade de fazê-lo e lembra quem conseguiu evitar um
gol de pênalti.


Gostaria que tivéssemos mais competições desse tipo na
família das nações. Países competindo pela melhor posição na escala de respeito
aos direitos humanos, um tentando superar o outro nas taxas de sobrevivência
infantil ou de ingresso no ensino médio. Estados fazendo performances para o
mundo todo assistir. Governos sendo parabenizados pelas ações que levaram
àquele resultado.


Segundo, a Copa do Mundo é um evento sobre o qual todo o
planeta adora conversar. Discutir sobre o que seu time fez de certo e o que
podia ter sido feito diferente, sem mencionar o que o time adversário fez ou
deixou de fazer. Pessoas sentadas em cafés em qualquer lugar, de Buenos Aires a
Pequim, debatem intensamente os melhores momentos dos jogos, revelam um
profundo conhecimento não só dos seus times, mas dos de outros países e falam
no assunto tanto com clareza quanto com paixão.


Normalmente, adolescentes calados tornam-se, de repente,
eloqüentes, confiantes e incríveis especialistas em análise. Eu gostaria que
tivéssemos mais desse tipo de conversa mundo afora. Cidadãos engajados na
discussão de como seu país poderia ter melhores desempenhos no Índice de
Desenvolvimento Humano, na redução de emissões de carbono ou de novas infecções
de HIV.


Terceiro, a Copa do Mundo é um evento que acontece num campo
igualitário, onde todos os países têm a chance de participar em termos
eqüitativos. Somente duas qualidades importam nesse jogo: talento e trabalho em
equipe. Eu gostaria que tivéssemos mais dessa homogeneidade na arena global.
Negociações livres e justas, sem a interferência de subsídios, barreiras ou
tarifas. Todos os países tendo chances reais de desenvolver seus pontos fortes
no palco mundial.


Quarto, a Copa do Mundo é um evento que ilustra bem os
benefícios da interação entre pessoas e países. Cada vez mais seleções nacionais
contratam técnicos de outros países, que trazem novas formas de se pensar e
jogar. O mesmo vale para os jogadores das mais diversas nacionalidades que,
entre as Copas do Mundo, representam clubes em países distantes dos seus. Eles
trazem novos atributos para seus novos times, crescem com a experiência e são
capazes de contribuir ainda mais para seu país quando a ele retornam.


No processo, eles muitas vezes se tornam heróis nos países
estrangeiros, ajudando a abrir corações e mentes fechadas. Eu gostaria que
fosse igualmente simples para todos enxergarem que a migração humana em geral
pode criar ganhos triplos para migrantes, para seus países de origem e para as
sociedades que os recebem.


Esses migrantes não só constroem uma vida melhor para si
mesmos e para suas famílias, mas também são agentes de desenvolvimento
econômico, social e cultural nos países em que vão trabalhar e em seus Estados
nativos. Quando retornam, inspiram os que ficaram com suas novas idéias e seus
novos conhecimentos.


Para qualquer país, jogar na Copa do Mundo é uma questão de
profundo orgulho nacional. Para países classificados pela primeira vez, como
Gana, onde nasci, é uma questão de honra. Para aqueles que estão participando
após anos de dificuldades, como Angola, promove uma renovação do espírito
nacional. E para aqueles que estão divididos por conflitos, como a Costa do
Marfim -cujo time na Copa é um único e poderoso símbolo de unidade nacional-
inspira a esperança no renascimento nacional. Mas talvez o que nós mais invejamos
na ONU é que a Copa do Mundo é um evento no qual vemos realmente os gols serem
alcançados. E não estou falando somente dos gols que um país marca. Também
estou me referindo ao gol mais importante de todos: estar representado lá,
fazendo parte da família das nações e celebrando a humanidade comum a todos.


Vou tentar lembrar disso quando Gana jogar contra a Itália
no dia 12 de junho. Mas claro, não posso prometer que vou ter sucesso.


KOFI ANNAN , 68, economista ganês, é secretário-geral da ONU
(Organização das Nações Unidas)





2 comentários:

  1. Kofi Annan está absolutamente certo, seria de facto uma coisa maravilhosa que para além do futebol as pessoas tivessem uma noção mais humana sobre o trabalho das Naçoes Unidas, dos ideiais que movem essas nações e pessoas, dos insucessos, mas acima de tudo as vitórias em prol da humanidade.
    Lamento tambem que o seu Multiply seja lido por tantos, que se remetem ao silêncio dos cobardes e nada dizem, se calhar nem sabem o que dizer, por isso coitados o melhor é de facto ficarem calados.

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  2. De fato, é um trabalho fantástico o das Nações Unidas e tendo á frente Kofi Annan e tantas outras pessoas...
    Se muitos que aqui entram e não fazem comentários, se calhar não querem, não gostam, não sabem como fazê-lo... o que é uma pena.... e vemos e sabemos quem são os amigos, os amigos dos amigos e os conhecidos virtual e real que aqui entram... rs....

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