Xô, dengue!
Adentramos o terceiro milênio e continuamos convivendo com doenças próprias de regiões miseráveis, atrasadas e sem higiene. E orgulhamo-nos de viver em áreas consideradas quase paradisíacas, comparativamente a parte significativa do território brasileiro. Perdemos a certeza de sermos mesmo esse oásis de qualidade de vida.
A cidade do Recife oferece terreno fértil para a proliferação do inseto. Mais de 90% da população vivem em condições precárias de saneamento básico. As condições climáticas lhe são favoráveis com temperatura e umidade elevadas. Sem abastecimento regular de água, formam-se os criadouros ideais do Aedes aegypti. Os moradores das áreas de risco precisam manter água em reservatórios, e o lixo moderno, descartável por excelência, forma depósitos artificiais que atraem o mosquito.
A violência urbana é outro aliado da enfermidade. Os agentes de saúde não conseguem entrar nas casas para inspecioná-las. Amedrontada, a população teme estar diante de um bandido disfarçado que se diz funcionário da vigilância sanitária. Não lhe abre a porta. Para piorar, nesta época, o estado recebe grande fluxo de turistas. O ser humano é a fonte da transmissão do mal. É ele quem contamina o mosquito. Ora, não há possibilidade de inspecionar o porto, aeroporto, estação ferroviária, rodoviária e estradas para detectar possíveis infectados. Ainda que houvesse, a dengue, em muitos casos, é assintomática ou confunde-se com gripe ou resfriado.
Fator mais agravante no caso é a descoordenação do trabalho desenvolvido pelos órgãos responsáveis pela política de saúde da União, do governo estadual e da prefeitura. A realidade triste da saúde exige esforço redobrado das autoridades. E impõe-se menos discurso, menos marketing. Ao contrário, a cobrança da sociedade é por mais ação, mais gestos efetivos no sentido de melhorarmos a qualidade do atendimento à população. Notadamente no campo social, onde estão os problemas mais agudos, sistematicamente protelados.
Faz tempo, cuidar preventivamente de problemas potenciais da área social tornou-se peça retórica atropelada pelos fatos. A conseqüência é a continuidade de dramas pungentes exorcizados em países civilizados, mas ainda presentes em nosso cotidiano. Dramas, aliás, que ocorrem, e se repetem, porque prevenção é palavra quase desconhecida por autoridades com responsabilidades no campo social. Raramente vemos algum prefeito, algum governador, algum ministro ou presidente da República definir, na prática, como prioridade orçamentária à saúde, e a educação.
A rápida expansão da epidemia de dengue por diferentes estados brasileiros faz com que o poder público se movimente, apesar de se saber que os mosquitos transmissores estejam se proliferando e se espalhando pelo território nacional há mais de 25 anos.
Estamos na eminência de uma nova epidemia de dengue no Estado, por causa da falta de continuidade das políticas de saúde, principalmente, do Ministério da Saúde. O problema é que as ações têm sido feitas apenas quando ocorrem epidemias. Para combater o mosquito e a dengue, é preciso haver trabalho fora da época da epidemia.
A Fundação Nacional da Saúde (Funasa) investiu duas vezes menos no controle da dengue do que mandava o Plano de Erradicação do Aedes aegypti, em sua criação em 1996. Segundo o projeto, seriam necessários R$ 4,5 bilhões para acabar com o mosquito. Nos últimos dez anos, desde que o plano foi colocado em ação, o investimento foi de apenas R$ 2,2 bilhão.
Em dois anos (1995 e 1996), o então ministro da Saúde, Adib Jatene, formulou o mais pretensioso projeto para acabar com a dengue no País, que previa medidas de saneamento, abastecimento de água e controle de fronteiras como pré-requisitos para o fim do Aedes. O Plano de Erradicação teve a participação de dezenas de especialistas - com apoio até de técnicos cubanos - e pretendia acabar com o mosquito no território brasileiro, como já tinha ocorrido em 1958 e em 1973.
Na época, técnicos acreditavam que apenas um grande esforço e investimento poderiam prevenir futuras e grandes epidemias da doença no País. A iniciativa do ex-ministro Jatene era uma tentativa de que o Brasil não repetisse, nos próximos anos, uma epidemia como a de 1991, a maior da história, quando entrou no País o tipo 2 do vírus da dengue. Agora, em 2006, o tipo 3 promete fazer tantas vítimas como as registradas no início da década passada.
A prática comum tem sido a de postergar soluções e de atrasar envio de recursos. Historicamente, a justificativa passa pela insuficiência de verbas. Este comportamento omisso, às vezes quase criminoso diante das carências humanas básicas, resultou no aumento de casos de dengue. E acaba dificultando o combate efetivo.
O novo risco de epidemia de dengue é mais uma demonstração de como o setor público necessita de um "choque de modernidade". Lamentavelmente, é questão muito mais de gerência e administração, do que de recursos. Mas, infelizmente, é justamente na área da saúde que corre o empreguismo político, onde o que vale é o "quem indica", e não a capacitação profissional. Por isto, o setor é tão mal gerido e se encontra no estado que a população conhece.
Vivemos sempre com a impressão de que tudo tem de ser feito imediatamente. E temos a convicção de que se faz muito menos do que se deveria. Especialmente para minorar as desgraças no plano social. Mas, como também é sabido, os políticos têm pouquíssimo interesse em aplicar maciçamente em saúde. A alegação é antiga, estúpida: gastar dinheiro com isso não dá voto. E estamos em ano eleitoral. Então, chegou a hora de cobrar firmemente atos concretos dos deputados, senadores, governador, para que a vergonha que sentimos se transforme em orgulho por vivermos, de fato, em Estado de qualidade.
Espera-se também que a Prefeitura do Recife, consiga trazer recursos em volume mais significativo para a cidade ter condições de combater a dengue da maneira que deve. A saúde pública não pode ser tratada com desdém. Erradicar a dengue no curto prazo, sabemos, é impossível. Mas o poder público pode e deve tomar medidas capazes de mantê-lo sob controle e, sobretudo, de salvar vidas.
Enquanto isso não ficar claro e sua importância não for compreendida em toda a sua extensão, a mídia tornará a divulgar o ressurgimento de casos de endemias até pouco tempo consideradas extintas. E que voltam a preocupar comunidades inteiras.
As mesmas comunidades que aprenderam a usar o computador, falar inglês, globalizaram-se. Para muitos desses, no entanto, isso significou perda de emprego, crianças fora da escola, menos comida no prato, mais pobreza, menos higiene, mais doença. "Xô, dengue!" não pode ser só uma palavra de ordem.
Adroaldo Figueiredo
E a dengue continua a preocupar as pessoas que vivem nas margens dos rios e corregos, na maioria sem limpeza adequada...........
ResponderExcluirTodos temos o prefeito que merecemos....