domingo, 9 de julho de 2006

Nessa vida tudo é passageiro........


Nessa vida tudo é passageiro. Será mesmo?

Veja como é difícil a vida dos recifenses, aqueles que fazem parte da triste estatística... a dos cidadãos carentes (75% da população), que são obrigados a circularem diariamente cidade afora conduzidos por nossa "eficiente" frota de ônibus coletivos. Este é um texto dedicado a essas pessoas.


Pois bem... Só quem já precisou pegar um ônibus lotado, num dos ensolarados e quentes inícios de tarde do nosso desleixado Recife, saberá do que estou falando... Saberá também que não refiro-me aos carentes de alguma formação acadêmica ou de renda e sim aos desprovidos de razoável capacidade mental e de raciocínio mediano, fator de grande culpa no cartório que acaba acrescentando um quê a mais de irritação (ou quem sabe de tragédia), capazes de deixar-nos todos, pelo menos os que têm um pouco de bom senso, boquiabertos, nos caminhos que percorremos todos os dias, no nosso "maravilhoso" sistema de transporte público.


Se já não bastasse o calor insuportável, o trânsito infernal, o tempo perdido por longa espera, a péssima infra-estrutura, os buracos, as poças d'água e os muitos outros obstáculos das ruas e avenidas, a falta de policiamento adequado, a insegurança e mais inúmeros (maus) exemplos, há ainda outra mazela que torna nossas idas e vindas de ônibus ainda mais desagradáveis: a ignorância alheia. Refiro-me à ignorância, aquela que incomoda, a irritante, que importuna, a que não dá para não mexer a cabeça em ar de reprovação. A sinônimo de pobreza de espírito. Digna das criaturas sem noção de espaço e limites, sem qualquer senso de ridículo, que graças à sua santa ignorância não enxerga um palmo à sua frente, quem o diga um palmo ao lado, atrás, ou até mesmo a um centímetro de distância. Obviamente não nos deparamos, ou esbarramos, com esses indivíduos somente nos ônibus do Recife. Mas é desse tipo de ser que quero tecer os meus comentários.

Ato de coragem - Ao entrar num desses ônibus, a gente já se depara com um cobrador cujo grau maior de eloquência é grunhir alguma coisa, caso você tenha a falta de sorte de precisar de uma informação qualquer dele. A partir daí, a coisa só piora. Uma olhadela rápida no corredor já mostra a sucursal do inferno. É notória também a paradinha rápida na catraca, com o sentido duplo de dar uma respirada para o que vem pela frente, e também de fazer rápidos cálculos mentais das melhores trajetórias entre mochilas, sacolas, pacotes e vasilhames. É corriqueiro em todas as linhas de ônibus da cidade, os motoristas desenvolverem com mais rigor toda uma técnica de "acomodação" de passageiros com "suaves" partidas e freadas.

Os invasores - Pegue um ônibus no sentido subúrbio cidade e me diga se vai ou não ter pelo caminho: crianças exploradas por maiores nos pedindo esmolas... vendedores ambulantes de todos os tipos, revezando trecho por trecho, oferecendo os seus produtos... Os velhinhos brigões com os que ocupam indevidamente os seus assentos... os muambeiros... os pedintes que ao entrar no ônibus para mendigar, anunciam em voz alta: eu tô pedindo, eu não tô roubando... os malabaristas que expandiram para dentro dos ônibus as fronteiras de seus palcos de rua... os golpistas que usam sempre a velha "fórmula" de pedir dinheiro para um parente muito doente... São retratos do descaso do Recife com a sua população miserável e um desrespeito com os passageiros. Por onde você passar, você verá gente pedindo esmolas ou vendendo algo pelas ruas da cidade, mas agora também dentro dos ônibus, já é demais.

Cantores anônimos – São piores do que as músicas do rádio do motorista de ônibus. As vozes deles são irritantemente mais altas, com direito a batida (na maioria de brega ou pagode) no banco da frente, que por azar pode ser o seu, ou no teto do ônibus, trazendo uma sensação extremamente desagradável quando eles começam a pedir coro para as pessoas dentro do ônibus. Isso se eles não dedicarem uma música para você.

Igreja Delivery – Imagina que você, sentado ou em pé, esteja naquele sono leve pela manhã e de repente um lunático começa a gritar trechos da bíblia, como se estivesse chorando, desesperado. Um pulo é o mínimo que pode acontecer depois do susto. Por favor, quem quiser ouvir alguém pregando vai ao culto das sete da manhã. Serviço de entrega gratuito desse tipo, além de ser falta de respeito, é proibido.

Audiometria já – Devia existir um medidor de decibéis em cada opção de transporte público. Assim que uma criatura começasse a elevar o tom de voz, um apito estridente começaria a tocar bem alto do lado dela. Ou essas pessoas querem que todos saibam e participem de suas conversas ou estão ficando surdas, porque ninguém merece querer estar em paz com seu próprio silêncio e ter de ouvir as duas maricotas falando mal dos colegas de trabalho, do marido, dos filhos, do governo, do ar condicionado fraco do ônibus, das contas, da Copa, da novela...

Eu vi primeiro - Todo mundo conhece o caos que é os ônibus nos horários de pico. Fila, que é bom, não existe. Se você não conseguir adivinhar o local certo onde a porta do ônibus vai abrir quando ele chegar, para ser um dos primeiros da fila, provavelmente não irá sentado. Mas além dos desesperados por um assento, ainda tem os desesperados para colocar as mãos no corrimão, ou seja, ou você se apóia pelos dedos, ou fica na ponta do pé para conseguir uma vaga lá em cima ou desconfortável para colocar a mão em baixo, totalmente sem equilíbrio. E se você reclamar por seus direitos, aí mesmo que eles não se mexem...

Sai que o banco é meu – Os bancos dos ônibus são desconfortáveis e estreitos e, graças à inteligência dos fabricantes, que devem fazer testes com crianças faquir, há pessoas que, mesmo que você esteja sentado lá antes, espalham-se e acomodam-se sem se importar que alguém esteja espremido ao lado delas ou, se você estiver na ponta, com metade da bunda para fora do banco. Pior ainda é quando elas dormem e, “sem querer”, usam seu ombro de travesseiro.

Vai “saltar” na próxima? – Já repararam como as pessoas preferem sentar perto da porta traseira do veículo? Provavelmente para sair mais rápido ou, se estiver cheio, para não ter muitas dificuldades para sair. Até entendo, apesar de achar desnecessário. Mas precisa empurrar as pessoas, ficar fazendo aquele barulho de quem está chupando bala e perguntar mal-humoradamente “vai saltar na próxima, colega”? Não, não vou DESCER, não.

É... onde mais juntar toda essa gente, de tão diferentes origens? Onde mais, senão nos ônibus do Recife se poderia encontrar tipos mais exóticos? Ah... tinha de ser no ônibus. Tinha que ser no Recife, a cidade onde tudo pode. Tudo com o patrocínio, lógico, da EMTU.

Adroaldo Figueiredo, Boa Viagem

adrofig@ig.com.br

3 comentários:

  1. Adroaldo,
    Excelente texto......
    Parabens e obrigada por me deixar publicar...
    Francy

    ResponderExcluir
  2. Muito bom esse texto, fazia tempo que eu n andava de ônibus aqui no rj, mas semana passada eu tinha que pegar a minha carteira de habilitação no Detran, e me deparei com um ambulante gritando desesperadamente para a venda de umas balas, nossa n tem coisa pior do que ambulante de ônibus, eu n sei ai, mas aqui isso é super normal, os motoristas param e eles entram pela porta da frente para vender seus produtos. Eu sei que todos precisam trabalhar, mas sinceramente n em uma condução, ainda mais qdo a viagem é longa e o passageira quer tentar relaxar ficando de olhos fechados....vc n imagina o susto que se pode levar.
    Bjs

    ResponderExcluir
  3. Bem,
    Em Recife, parece que é muito complicado. Raramente ando de ônibus e quando faço, procure aqueles que chamam de "frescão" por ser mais rápido, mas é muito chato alguem gritar no teu ouvido. Estou tão acostumada a viver em lugar calmo, que quando vou ao Recife na primeira semana tomo um sosto, depois vou me acostumando....
    bs,

    ResponderExcluir